sexta-feira, 31 de julho de 2009

Reforçador e Aversivo

Reforçador e Aversivo

Muitas pessoas aprendem a se perder na realidade que não as pertence. O trabalho que não se identifica, os amigos que não gosta, o lazer que não te satisfaz. Talvez esses problemas não cheguem a ser insuportáveis, mas agradável ou motivador chega a ser quase um sonho. Afinal, ninguém é feliz o tempo todo e se acostumar a situações complicadas faz parte da vida.
E se, ao parássemos para pensar, existisse um costume maior nosso de nos esquivar ou tentar nos habituar a situações desagradáveis do que propriamente identificá-las e tentar mudá-las? Não que não tenhamos situações prazerosas, mas a quantidade de vezes que nos preocupamos em nos esquivar de coisas ruins são maiores do que a do sentimento de bem estar?

Provavelmente já passamos por momentos assim e, quem sabe, vivemos assim. Faço o que as pessoas querem para não ter que lidar com queixas, omito minha opinião para que não haja confusão, me comporto assim ou assado com medo de ser julgado, etc. A sensação de vazio começa a fazer parte de nós e, vez ou outra, nos incomoda.

Ainda bem que incomoda! Viver do modo exemplificado acima é ter os comportamentos controlados por estímulos aversivos (ruins). Quando a quantidade de situações aversivas supera a quantidade de situações que nos fazem bem (reforçadoras), a sensação de vazio ou de incompletude começa naturalmente a fazer parte de nós. É só perceber aquelas pessoas que se queixam ou são mais pessimistas em relação aos diversos acontecimentos da vida, e que não percebem o quanto são acostumadas a se comportar para fugir de estímulos aversivos. E quando a tentativa de fuga do aversivo não funciona - mesmo com a tentativa do indivíduo - a raiva ou desânimo crescem ainda mais.

Até agora, nenhuma grande novidade, mas porque ao final desse texto provavelmente voltemos a nos comportar do mesmo jeito que nos traz incômodo?

Em muitas situações que vivenciamos estímulos aversivos esperamos algo de reforçador acontecer. Agüentamos aos trancos e barrancos condições ruins porque a gente acredita que algo pode mudar. Quanto maior e mais imprevisível é o intervalo do que nos é reforçador ocorre, mais esperamos ser reforçados e mais difícil abrir mão do comportamento em questão. A menina está decidida em acabar o namoro porque já não suporta mais os problemas, mas por causa de um momento de reconhecimento do homem em relação a ela (reforçador), ela muda de idéia. A menina não esperava que isso fosse ocorrer, e há muito tempo isso não ocorria – o que ocasiona dificuldade em acabar o relacionamento.

Sem mais teoria, pense agora como isso pode estar ocorrendo hoje em muitas outras situações. Tanto a fuga dos estímulos aversivos e o reforço demorado dificultam a mudança no nosso comportamento. A insatisfação toma conta do indivíduo e, sem perceber, a sua forma de ser vai se direcionando à esquiva ou à espera de um reforçador que raramente acontece. Pior ainda se as condições reforçadoras se resumirem a poucas situações na vida. O indivíduo começa a depender que elas aconteçam para se sentir feliz.

Identificar o que é reforçador para você e a partir daí buscar várias situações que isso possa ocorrer, é um passo importante para que o indivíduo experimente satisfação emocional com mais freqüência. Por exemplo, se buscamos ser reconhecidos ou valorizados será que criamos muitas situações para que isso possa ocorrer ou nos limitamos a uma pessoa específica? São muitos os lugares que nos sentimos bem com nós mesmos ou dependemos de muitas variáveis para nos sentirmos felizes? Como diria o velho ditado popular: “a felicidade está nas [várias] pequenas coisas”. O fundamental é que saibamos nos deparar, através das pequenas coisas, algo que seja reforçador para a vida.

domingo, 14 de junho de 2009

O valor do autoconhecimento

Talvez um dos maiores mistérios da humanidade seja a compreensão das motivações, aspirações, paixões e medos do ser humano. Nem com anos de terapia ou análise a pessoa consegue se conhecer completamente, e essa distância do autoconhecimento faz com que possamos nos surpreender com nossas ações. O que pensamos de nós não necessariamente corresponde ao que somos e, por isso, o aprendizado no contato com o outro pode ser tão importante. Podemos amadurecer e desenvolver outras percepções acerca de nós, mas cabe ao sujeito tirar o foco do próprio umbigo e entender que não precisa ser aquilo que sempre foi. Traumas e dificuldades do passado não significam necessariamente tormento no presente e nem no desenvolvimento de relações saudáveis consigo e com o outro no futuro. É um processo de escolha permanecer na inércia.

O processo de mudança se dá constantemente, visto que nossa interação com experiências diversas nos possibilita o crescimento individual. Hoje posso estar ciente daquilo que acredito e isso me fazer bem, mas isso não garante que esses valores precisem perdurar minha vida inteira. No momento em que as mudanças pessoais se fizerem necessárias é importante que elas possam ocorrer de forma natural, a fim de que não surja um entrave que possa estar nos fazendo mal. Além disso, permanecer apegado aos antigos valores que não servem à mudança é buscar uma falsa segurança numa felicidade passageira.

Digo passageira, pois a sensação de bem estar pode até existir enquanto o sujeito corresponder às expectativas sociais durante um tempo. A questão é que não tarda a surgir uma sensação de mal estar quando os comportamentos seguidos não condizem com aquilo que acreditamos. Podemos então voltar a responder as nossas próprias demandas nadando contra a correnteza que muitas vezes se configura como a sociedade. Como somos seres sociais e precisamos de outros seres humanos, a coerção social faz com que voltemos aos modelos propostos mesmo que não nos respeitemos nesse movimento.

Não precisa ser psicólogo ou estudante de psicologia para perceber a quantidade de sujeitos que vivenciam sofrimentos devido à distância entre aquilo que acreditam ser o certo e os desejos ou o que gostariam de fazer. O apego ou a busca por satisfazer o que é pedido por valores morais rígidos vai nos torturando aos poucos na medida em que nos afastamos daquilo que queremos. Torna-se hábito adaptar-se a tudo isso.

Para além da máscara social todos nós buscamos no fundo um sentido para nossa existência. O formato ou o ideal procurado por cada indivíduo vai depender da história de vida e influências do ambiente, mas isso não tira o mérito do poder que a pessoa tem acerca de sua existência. Para Sartre (ano) estamos condenados à liberdade e essa nos responsabiliza por cada escolha que decidimos tomar. Ao finalmente compreender as possibilidades e limitações sem traumas ou moldes que dificultem nossas modificações fica mais fácil equilibrar aquilo que somos e aquilo que desejamos nos tornar.

Porque isso tudo é tão difícil?

O primeiro problema é que as possibilidades ou potencialidades de cada sujeito raramente são ressaltadas ou percebidas tanto pelos outros quanto pelo próprio indivíduo. Muitas vezes a pessoa só passa a ser reconhecida pelo outro em momentos em que se distancia desse outro; seja pelo fim de um relacionamento amoroso ou pela morte ou o que for. Nosso contexto cultural ainda pesa no sentido em que somos educados ao que não se deve fazer, ao que não se pode ser, ao que não se é permitido pensar... e isso tudo estraga nossa percepção positiva e incondicional tanto nossa quanto em relação aos outros.

O segundo problema é a dificuldade de enxergar nossas próprias dificuldades pessoais e defeitos. Numa sociedade que busca a resolução máxima de conflitos não existe espaço e nem respeito no momento de lidar com as próprias limitações. Ao buscarmos afastá-las não estamos simplesmente nos negando a nos perceber como sujeitos passíveis de erros, mas negamos também o potencial que esse conhecimento pode ter no processo de crescimento individual. Como um processo de ditadura da felicidade, nos forçamos a afugentar com todas as forças possíveis dificuldades que possam surgir. Daí a associação de tristeza ou dificuldades pessoais a quase que uma doença que precisa ser curada, embora esse sentimento faça parte da vida do indivíduo.

O processo de autoconhecimento é um artifício complexo, mas que gera frutos produtivos à felicidade e ao crescimento pessoal. Temos a liberdade de escolher aquilo que vamos absorver nos nossos relacionamentos com as pessoas e com experiências de vida. A responsabilidade existencial depende do nosso desapego ao medo das dificuldades moldadas ao longo de nossas vidas e a percepção daquilo que, com certo esforço, somos capazes de mudar. O processo de aprendizado se dá no movimento de mudança contínuo que é disponível toda vez que há mobilização para a compreensão de si. O importante é que essa ação nunca permaneça acabada.

segunda-feira, 25 de maio de 2009

Sentido do trabalho

Certa vez, ao apresentar um seminário, perguntei ao público presente quais palavras lhes remetiam a cabeça ao ouvir a palavra trabalho. As respostas não variaram muito dentre dinheiro, sobrevivência, emprego e dinheiro outra vez. A partir dessas respostas comecei explicando que todas essas palavras só se remetiam a uma das concepções de trabalho e que este já foi bem mais amplo do entendimento que temos sobre ele nos dias atuais.

Para os gregos, o trabalho foi pensado em labor, poiesis e práxis (ALBORNOZ, 2008). Nessa época existia uma adaptação do trabalho às necessidades humanas e cada um dos seus três aspectos favorecia o homem. O labor era compreendido como atividade necessária à sobrevivência que exigia sacrifício humano para manter a espécie. A poiesis era entendida como prática de construção de instrumentos ou obras artísticas que demandavam motivação e criatividade do indivíduo e que era um dos modos de lazer. A práxis possibilitava o homem livre ir às praças e debater questões referentes à democracia. Após essa época, houve uma inversão do homem que adaptava o trabalho às suas necessidades para o homem que precisava se adaptar às necessidades do trabalho.

Esse processo ocorreu devido a um movimento de supervalorização do labor durante a história do Ocidente. Na Idade Média, a Igreja defendia que o trabalho que exigisse sacrifício era aquele capaz de trazer purificação do espírito na vida eterna. O sofrimento da carne se fazia necessário àqueles que desejavam o reino dos céus. Na Idade Moderna, Adam Smith separou o trabalho produtivo do improdutivo afirmando que o primeiro era aquele que traria dinheiro à nação. O mercado se auto-regularia com a lei de oferta e procura e o estado passaria a gerar empregos que favorecessem o trabalho produtivo. Esse pensamento culminaria na exploração do trabalho na Revolução Industrial, no qual existia a submissão dos operários que não tinham instrumentos de produção para o trabalho. Estar empregado se tornava sinônimo de ter trabalho e práxis e poesis eram considerados improdutivos.

Nos dias atuais, se o trabalho se torna sinônimo de emprego e se o objetivo deste é obter renda para a sobrevivência, para o consumo, ou para outra coisa, que ele possa ser pensado como um dos meios, e não como o sentido da existência. A palavra trabalho vem do latim tripalium que denominava um instrumento de madeira em formato de tripé que era utilizado para tortura pelos romanos. Além disso, nas definições da língua portuguesa, ao buscar o sentido da palavra, pode-se encontrar aproximação ao sacrifício ou ao sofrimento. Tendo isso em vista, por que o trabalho se tornou tão importante na vida do indivíduo?

Esse aspecto passou a ser fundamental na identidade do homem. Quando alguém nos é apresentado é dito primeiro seu nome e logo em seguida a sua profissão. É como se pudéssemos definir o que a pessoa é ou o que ela gosta devido à atividade que exerce. Esse primeiro conhecimento acaba, em algumas ocasiões, limitando que tipo de diálogo teremos com a pessoa que nos foi apresentada. A profissão vem em primeiro lugar para depois sabermos quem é que está por trás dela. Seria no mínimo estranho se apresentássemos alguém dizendo “esse é fulano e seu sonho é...”. Não foi isso que aprendemos a valorizar. O trabalho ainda está em primeiro plano.

O emprego pode trazer perspectivas positivas na vida do sujeito, mas não precisa ser o único referencial de sua existência. O trabalho pode ser encarado como um desafio, como crescimento ou como possibilidade de socialização, mas flexibilizar nossas vidas para corresponder às expectativas do emprego podem trazer conseqüências negativas que muitas vezes não são percebidas por nós.

Em um estudo realizado por Sennet (2007), foi revelado que algumas exigências no mundo do trabalho como uma sobrecarga de serviços fragilizam as relações humanas. O autor afirma que a rapidez nos processos de negociação e no rápido desenvolvimento da tecnologia afasta o homem do contato humano e da possibilidade de desenvolver relações significativas de amizade ou de confiança. Isso porque esses valores exigem certo tempo para serem firmados e a velocidade com a qual as coisas no trabalho acontecem distanciam a probabilidade disto ocorrer. Além disso, é crescente o número de psicopatologias que surgem através do trabalho como stress, depressão, burnout etc.

Tudo bem que ninguém vive de luz, mas viver para o labor é desperdiçar a vida em sobreviver. No Oriente o sentido do trabalho é diferente, pois não houve essa supervalorização do labor. A questão não é fugir da nossa cultura ou abominá-la, mas entender qual o sentido que temos dado ao trabalho e à vida. Lançar mão da saúde em prol do dinheiro no começo da vida, e no final da vida usar o dinheiro para resgatar saúde não faz sentido (essa idéia é de um autor que não lembro o nome). Não para mim.

sexta-feira, 15 de maio de 2009

À existência de sentido

“O que importa não é o que fizeram de mim, mas o que faço do que fizeram de mim” Sartre

O mundo contemporâneo exige o cumprimento de diversos papéis sociais que nem sempre são facilitadores de uma vivência com sentido. Sentido este que muitas vezes se perde na despotencialização do ser e na desconfiguração daquilo que nos é significativo.

Um cada dia se torna um todo dia no momento que não nos implicamos na nossa existência. Explicá-la é diferente de estar implicado nela. É como um cientista que fala do objeto pesquisado, mas que não se interessa pela pesquisa. Ao explicarmos encontramos um motivo racional para o sofrimento, mas isso não o resolve. O que é sentido nem sempre pode ser explicado.

E que sentido é esse que damos as tristezas, angústias e decepções que mesmo depois de explicados continuam ali, incomodando o nosso todo dia? Sentidos não resolvidos sempre voltam. É como aquela dor de cabeça que funciona como justificativa para as preocupações, mas que nos acompanha no todo dia. Um todo dia sem sentidos.

Se reinventar e se recriar são propostas sugeridas corriqueiramente nos best sellers de saúde mental. E como todo manual e toda receita, o resultado raramente é o esperado. O reinventar-se nos implica naquilo em que sentimos, por isso não pode ser explicado racionalmente. Como num manual buscamos maneiras corretas ou estilos de vida que possam ser capazes de trazer ou promover a felicidade. O que dificilmente se atenta é que isso não funciona, caso a percepção daquilo que nos é significativo seja deixada de lado.

Em outras palavras, nossos sentidos e nossa percepção se orientam para aquilo que satisfaz as nossas necessidades. O viver bem ocorre no momento em que conseguimos usar o nosso potencial e os nossos sentidos ao nosso favor satisfazendo-as. O que ocorre é que ao estarmos acostumados a absorver fatos e pensamentos que não nos fazem bem, nos movimentamos contra aquilo que poderia ser importante para nós. A cada vez que me oriento a desconfiar das pessoas, por exemplo, dificilmente experencio um bom momento nos meus relacionamentos, pois meus sentidos não estão voltados para isso.

Ouvir as próprias misérias no momento de angústia facilita a reestruturação dos sentidos. Quando sentimos tristeza, tentamos afastá-la o mais rápido possível, mas é nesses momentos que podemos descobrir do que estamos necessitando nas nossas vidas. “O que eu tenho feito?”, “O que eu quero?”, “O que eu espero?”, “O que eu evito?”; são perguntas que auxiliam na reflexão daquilo que faz parte das nossas necessidades.

Esse texto não é uma receita. Não existe um padrão ou um modelo a ser seguido daquilo que nos pode ser significativo. Talvez uma das formas possa ser aprendendo a ouvir o que nos é indispensável, reestruturar os próprios sentidos e atentar para aquilo que nos potencializa como sujeitos responsáveis pela nossa existência.

Inclusive, os clientes em atendimento psicológico geralmente se apresentam com um sofrimento acerca dessa existência. Os sentidos que mobilizam o sujeito para a felicidade há muito tempo não são ouvidos e a vivência se torna vazia e monótona. Tão monótona que pelo fato de não se ouvir, a pessoa dá o poder a outras pessoas decidirem o que é melhor para as suas próprias vidas de forma que os sentidos se confundem com as expectativas sociais acerca de nós. Em pouco tempo, essa felicidade se vincula então ao afeto da mãe, aceitação dos amigos, ao reconhecimento do chefe no trabalho e assim vai.

Em outras palavras, quando não estamos bem tendemos a ignorar as nossas necessidades alertadas pela nossa percepção e vinculamos nossa satisfação à dependência das atitudes do outro. É tanto que, quando nos sentimos seguros daquilo que nos faz bem atendendo na medida do possível aquilo que precisamos, tendemos a perceber o nosso mundo e nossos relacionamentos de outra forma. O mundo pode estar desabando, mas quando atentamos para os fatos significativos dessas experiências, percebemos aquilo que nos faz bem.

A felicidade eterna não existe. O sofrimento faz parte da existência humana, mas a forma como lidamos com ele é que faz a diferença. Talvez esse seja o ponto mais importante nos clientes em atendimento. Reconhecer aquilo que é realmente necessário se orientando através daquilo que é sentido, pode proporcionar um crescimento no qual a pessoa se sinta potencializada e não vítima, mas agente da própria existência.

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Óbvio, mas nem tanto

As coisas mais óbvias geralmente são aquelas que passam mais despercebidas e por isso mesmo deixam de ser óbvias. Com o tempo se torna dispendioso pensar sobre uma idéia tantas vezes repetida, mas que na prática raramente acontece. A banalização de pensamentos vai nos acostumando a permanecer na situação cômoda de não buscar quebrar a cabeça ou refazer valores pessoais. É óbvio que isso dá trabalho e se está bom do jeito que está, por que mudar?

Um exemplo de um pensamento bem óbvio “não adianta insistir no diálogo com uma pessoa que não entenda o que você diz”. Simples demais, mas a necessidade de fazer com o que o outro entenda o que a gente diz ultrapassa a compreensão dessa frase. A gente insiste, argumenta e finalmente desiste quando vê que “não vai ter jeito, vai continuar ignorante”. O que não se atenta quando começa essa argumentação é que o outro não está preocupado em entender a idéia transmitida e quem se mobiliza para o convencimento somos nós.

De quem é o problema?

Nosso. Quando persistimos em defender uma ação ou idéia que não faz parte das necessidades do outro e ignoramos que este não está disponível para ouvir, quem está precisando ser ouvido é a pessoa que argumenta. É tanto que não se pergunta nem se a pessoa quer mudar e já estamos bombardeando-a com conselhos ou sugestões de ações que deva tomar. Nos momentos em que começam essas discussões pode perceber que o problema existe para quem busca mudar o outro através da idéia, mas esse outro por si só não entende essa situação como ruim – talvez por ela realmente não ser ruim para ele.

Então porque insistimos em tentar mudá-lo se o incômodo é nosso? Freud(ano) ao escrever sobre os neuróticos – a grande maioria de nós – argumentava que buscamos resolver problemas, paixões e culpas através do outro. Para a psicanálise, a satisfação desses desejos se relaciona com o nosso narcisismo. Ao tentar convencer alguém de alguma idéia não confirmamos somente essa idéia, mas inconscientemente procuramos nossa confirmação. Daí fica mais fácil entender porque pode se tornar tão necessário buscar convencer o outro, pois tentamos resolver nossos problemas através deste.

O que importa é que o processo de mudança de qualquer pessoa passa primeiro por uma necessidade pessoal provocada por qualquer experiência que seja. Ignorar isso pode ser vivenciar frustração desnecessária. A estratégia do convencimento pode até atender nosso narcisismo, mas não provoca mudança efetiva em ninguém.

Pensando essa idéia em Piaget(ano) o desequilíbrio é fundamental para o aprendizado. Quando passamos por situações de desequilíbrio, a nossa necessidade de equilibração nos mobiliza para a construção de novos esquemas. Esses esquemas são modelos de associação do pensamento que recorremos para organizar nossas ações. Então até a forma como sentimos e percebemos o mundo passa por essa compreensão cognitiva dos esquemas construídos.

É por isso que aquilo que é óbvio demais ou argumentações que não fazem parte das nossas necessidades não nos mobiliza para mudanças. O óbvio não é repensado, pois já é associado aos nossos esquemas mentais anteriores. O que geralmente ocorre é que depois de criados eles são só uma forma de perceber a situação e isso ocorre de forma que começa a surgir dificuldade de vê-la a partir de outras perspectivas. Daí o problema de muitas pessoas conseguirem pensar situações de maneiras diferentes ou mesmo conseguir entender o ponto de vista do outro. Esse pode ser mais um motivo pelo qual o convencimento se torna tão necessário; ao convencê-lo ou tentar mostrar a minha visão não me esforço para sair dos meus esquemas mentais – um processo que dá trabalho.

As argumentações que não fazem parte das nossas necessidades não passam pelo processo de reequilibração por não terem sido anteriormente desequilibradas. Ignoramos a nova informação antes mesmo de ser compreendida. Quando não nos dispomos a vivenciar algo que possa provocar desequilíbrio nos apegamos aos esquemas quase como verdades absolutas. Inclusive, diferenciar firmemente certo e errado pode significar apego aos esquemas criados e dificuldade de perceber outros.

Expandir o pensamento para novas percepções além da que estamos acostumados dá trabalho. Dispor-se a isso é dar espaço para criar experiências singulares naquilo que há tanto tempo é vivido. Por mais que possamos nos negar a enxergar, nem tudo é tão óbvio quanto parece.

domingo, 19 de abril de 2009

Balança de três pratos - Parte I

1+1=3. Não podia ser diferente ao se falar de relacionamentos de casais. É comum que isso seja esquecido e daí surgem alguns problemas que se tornam insuportáveis com o passar do tempo. Ela(e) já não me faz tão bem quanto antes, me sinto preso(a) aos ciúmes dela(e), nunca consigo fazer as coisas que gosto quando estou com ela(e) etc. Essas sensações podem perpassar diversos casais quando a balança não está equilibrada.

O que seria isso? A mulher tem os próprios gostos e a própria história de vida antes de entrar num relacionamento assim como o homem. Quando os dois resolvem iniciar uma história juntos, existe um terceiro aspecto que precisa ser cultivado. O relacionamento do casal, a individualidade do homem e a singularidade da mulher compõem essa tríade que faz parte do equilíbrio emocional dos dois. Sem isso, sentimentos de aprisionamento, de se sentir desvalorizado pelo outro e/ ou ausência de motivação podem se tornar freqüentes, principalmente para uma das partes do casal.

Digo uma das partes, pois a individualidade de um acaba prevalecendo em detrimento da singularidade do outro. Não é difícil visualizar a quantidade de casais que isso ocorre – enquanto um parece se dedicar mais ao relacionamento ou busca satisfazer o outro, este outro parece não reconhecer esses esforços. Os desejos do segundo são privilegiados em relação às vontades do primeiro. Numa balança onde pesam somente dois pratos é difícil um efeito de bem estar para ambos em médio ou longo prazo.

É interessante observar que, muitas vezes, ao iniciar um relacionamento, algumas mulheres abdicam aos poucos da vida que tinham para viver para o casal. Com o passar do tempo, as amizades e o lazer que a mulher cultivava perdem espaço para a dedicação à vida a dois. A singularidade começa a ser sufocada, a prioridade se torna o relacionamento e alguns problemas começam a surgir quando essa postura é exigida dos homens. É como se tivesse aquela sensação de “Eu me dedico tanto a ele. Seria bom se ele fizesse o mesmo”.

Embora a vida de casal seja importante para os homens, muitos não estão dispostos a abdicar dos amigos, da cerveja ou do futebol. A mulher não deixa de ter sua importância, mas ela é dividida com a individualidade do homem. Isso não significa que nós não sabemos valorizar o relacionamento, mas que precisamos de nosso espaço. A grosso modo, parece ser mais comum o sentimento de frustração da mulher pela falta de atenção do outro do que no homem. E essa frustração só piora com a diferença nos modos de comunicação dos gêneros.

Watzlawick (1967) estudou os efeitos e componentes da comunicação humana e percebeu que esta tem seu aspecto digital e seu aspecto analógico. O aspecto digital da comunicação é o conteúdo propriamente dito, enquanto que o aspecto analógico se refere ao conteúdo não verbal. Então ao dizermos “eu quero água”, a informação seria o aspecto digital e o tom de voz usado, os gestos, a expressão facial seria o aspecto analógico.

Tendo isso em vista, o que se observa, de modo geral, é que há uma percepção mais apurada dos aspectos analógicos da comunicação na mulher. O tom de voz da mensagem e o uso do corpo para a transmissão da informação são às vezes mais significativos do que a própria mensagem. Uma idéia pode ser dita de diversas formas, e isso tem um peso ainda maior na percepção feminina na comunicação.

Para o homem, o que foi dito se destaca mais do que a forma como foi transmitido. Não temos a facilidade de pensar para adivinhar o que exatamente foi bom ou ruim naquele determinado momento que foi capaz de mudar completamente o comportamento feminino. Os fatos e as palavras falam por si só e, por isso, na nossa perspectiva, é difícil entender o que vocês interpretaram caso o que vocês sintam não seja dito.

Então eu diria para as mulheres que os homens precisam entender o que as frustra de forma clara e objetiva. Muitos de nós temos dificuldade de compreender se fizemos algo que as magoassem, pois o que importa para nós é o conteúdo da mensagem e não a sua forma. Não adianta ficar chata e abusada se não soubermos o que as incomoda.

Para os homens, é importante lembrar que a relevância dos nossos pequenos gestos, do tom de voz que usamos para comunicar algo e das palavras utilizadas pode arruinar ou fazer ganhar o dia da mulher que amamos. Tendo isso em vista, mesmo sem conseguir entender exatamente o que elas querem dizer com as entrelinhas, o nosso esforço real em tentar compreendê-las pode ser importante para elas.

Seja no equilíbrio dos três pratos ou nas diferenças na comunicação, a relação no casal se torna mais fácil quando há um respeito no modo de ser do outro. Brigar por achar que um se doa mais ou por achar que a culpa do relacionamento é responsabilidade do parceiro(a), não resolve os problemas. No fundo, cada um busca amar e se sentir amado assim como ser respeitado pela forma que é, e não pelo modo que o outro gostaria que você fosse.