As coisas mais óbvias geralmente são aquelas que passam mais despercebidas e por isso mesmo deixam de ser óbvias. Com o tempo se torna dispendioso pensar sobre uma idéia tantas vezes repetida, mas que na prática raramente acontece. A banalização de pensamentos vai nos acostumando a permanecer na situação cômoda de não buscar quebrar a cabeça ou refazer valores pessoais. É óbvio que isso dá trabalho e se está bom do jeito que está, por que mudar?
Um exemplo de um pensamento bem óbvio “não adianta insistir no diálogo com uma pessoa que não entenda o que você diz”. Simples demais, mas a necessidade de fazer com o que o outro entenda o que a gente diz ultrapassa a compreensão dessa frase. A gente insiste, argumenta e finalmente desiste quando vê que “não vai ter jeito, vai continuar ignorante”. O que não se atenta quando começa essa argumentação é que o outro não está preocupado em entender a idéia transmitida e quem se mobiliza para o convencimento somos nós.
De quem é o problema?
Nosso. Quando persistimos em defender uma ação ou idéia que não faz parte das necessidades do outro e ignoramos que este não está disponível para ouvir, quem está precisando ser ouvido é a pessoa que argumenta. É tanto que não se pergunta nem se a pessoa quer mudar e já estamos bombardeando-a com conselhos ou sugestões de ações que deva tomar. Nos momentos em que começam essas discussões pode perceber que o problema existe para quem busca mudar o outro através da idéia, mas esse outro por si só não entende essa situação como ruim – talvez por ela realmente não ser ruim para ele.
Então porque insistimos em tentar mudá-lo se o incômodo é nosso? Freud(ano) ao escrever sobre os neuróticos – a grande maioria de nós – argumentava que buscamos resolver problemas, paixões e culpas através do outro. Para a psicanálise, a satisfação desses desejos se relaciona com o nosso narcisismo. Ao tentar convencer alguém de alguma idéia não confirmamos somente essa idéia, mas inconscientemente procuramos nossa confirmação. Daí fica mais fácil entender porque pode se tornar tão necessário buscar convencer o outro, pois tentamos resolver nossos problemas através deste.
O que importa é que o processo de mudança de qualquer pessoa passa primeiro por uma necessidade pessoal provocada por qualquer experiência que seja. Ignorar isso pode ser vivenciar frustração desnecessária. A estratégia do convencimento pode até atender nosso narcisismo, mas não provoca mudança efetiva em ninguém.
Pensando essa idéia em Piaget(ano) o desequilíbrio é fundamental para o aprendizado. Quando passamos por situações de desequilíbrio, a nossa necessidade de equilibração nos mobiliza para a construção de novos esquemas. Esses esquemas são modelos de associação do pensamento que recorremos para organizar nossas ações. Então até a forma como sentimos e percebemos o mundo passa por essa compreensão cognitiva dos esquemas construídos.
É por isso que aquilo que é óbvio demais ou argumentações que não fazem parte das nossas necessidades não nos mobiliza para mudanças. O óbvio não é repensado, pois já é associado aos nossos esquemas mentais anteriores. O que geralmente ocorre é que depois de criados eles são só uma forma de perceber a situação e isso ocorre de forma que começa a surgir dificuldade de vê-la a partir de outras perspectivas. Daí o problema de muitas pessoas conseguirem pensar situações de maneiras diferentes ou mesmo conseguir entender o ponto de vista do outro. Esse pode ser mais um motivo pelo qual o convencimento se torna tão necessário; ao convencê-lo ou tentar mostrar a minha visão não me esforço para sair dos meus esquemas mentais – um processo que dá trabalho.
As argumentações que não fazem parte das nossas necessidades não passam pelo processo de reequilibração por não terem sido anteriormente desequilibradas. Ignoramos a nova informação antes mesmo de ser compreendida. Quando não nos dispomos a vivenciar algo que possa provocar desequilíbrio nos apegamos aos esquemas quase como verdades absolutas. Inclusive, diferenciar firmemente certo e errado pode significar apego aos esquemas criados e dificuldade de perceber outros.
Expandir o pensamento para novas percepções além da que estamos acostumados dá trabalho. Dispor-se a isso é dar espaço para criar experiências singulares naquilo que há tanto tempo é vivido. Por mais que possamos nos negar a enxergar, nem tudo é tão óbvio quanto parece.
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