sexta-feira, 15 de maio de 2009

À existência de sentido

“O que importa não é o que fizeram de mim, mas o que faço do que fizeram de mim” Sartre

O mundo contemporâneo exige o cumprimento de diversos papéis sociais que nem sempre são facilitadores de uma vivência com sentido. Sentido este que muitas vezes se perde na despotencialização do ser e na desconfiguração daquilo que nos é significativo.

Um cada dia se torna um todo dia no momento que não nos implicamos na nossa existência. Explicá-la é diferente de estar implicado nela. É como um cientista que fala do objeto pesquisado, mas que não se interessa pela pesquisa. Ao explicarmos encontramos um motivo racional para o sofrimento, mas isso não o resolve. O que é sentido nem sempre pode ser explicado.

E que sentido é esse que damos as tristezas, angústias e decepções que mesmo depois de explicados continuam ali, incomodando o nosso todo dia? Sentidos não resolvidos sempre voltam. É como aquela dor de cabeça que funciona como justificativa para as preocupações, mas que nos acompanha no todo dia. Um todo dia sem sentidos.

Se reinventar e se recriar são propostas sugeridas corriqueiramente nos best sellers de saúde mental. E como todo manual e toda receita, o resultado raramente é o esperado. O reinventar-se nos implica naquilo em que sentimos, por isso não pode ser explicado racionalmente. Como num manual buscamos maneiras corretas ou estilos de vida que possam ser capazes de trazer ou promover a felicidade. O que dificilmente se atenta é que isso não funciona, caso a percepção daquilo que nos é significativo seja deixada de lado.

Em outras palavras, nossos sentidos e nossa percepção se orientam para aquilo que satisfaz as nossas necessidades. O viver bem ocorre no momento em que conseguimos usar o nosso potencial e os nossos sentidos ao nosso favor satisfazendo-as. O que ocorre é que ao estarmos acostumados a absorver fatos e pensamentos que não nos fazem bem, nos movimentamos contra aquilo que poderia ser importante para nós. A cada vez que me oriento a desconfiar das pessoas, por exemplo, dificilmente experencio um bom momento nos meus relacionamentos, pois meus sentidos não estão voltados para isso.

Ouvir as próprias misérias no momento de angústia facilita a reestruturação dos sentidos. Quando sentimos tristeza, tentamos afastá-la o mais rápido possível, mas é nesses momentos que podemos descobrir do que estamos necessitando nas nossas vidas. “O que eu tenho feito?”, “O que eu quero?”, “O que eu espero?”, “O que eu evito?”; são perguntas que auxiliam na reflexão daquilo que faz parte das nossas necessidades.

Esse texto não é uma receita. Não existe um padrão ou um modelo a ser seguido daquilo que nos pode ser significativo. Talvez uma das formas possa ser aprendendo a ouvir o que nos é indispensável, reestruturar os próprios sentidos e atentar para aquilo que nos potencializa como sujeitos responsáveis pela nossa existência.

Inclusive, os clientes em atendimento psicológico geralmente se apresentam com um sofrimento acerca dessa existência. Os sentidos que mobilizam o sujeito para a felicidade há muito tempo não são ouvidos e a vivência se torna vazia e monótona. Tão monótona que pelo fato de não se ouvir, a pessoa dá o poder a outras pessoas decidirem o que é melhor para as suas próprias vidas de forma que os sentidos se confundem com as expectativas sociais acerca de nós. Em pouco tempo, essa felicidade se vincula então ao afeto da mãe, aceitação dos amigos, ao reconhecimento do chefe no trabalho e assim vai.

Em outras palavras, quando não estamos bem tendemos a ignorar as nossas necessidades alertadas pela nossa percepção e vinculamos nossa satisfação à dependência das atitudes do outro. É tanto que, quando nos sentimos seguros daquilo que nos faz bem atendendo na medida do possível aquilo que precisamos, tendemos a perceber o nosso mundo e nossos relacionamentos de outra forma. O mundo pode estar desabando, mas quando atentamos para os fatos significativos dessas experiências, percebemos aquilo que nos faz bem.

A felicidade eterna não existe. O sofrimento faz parte da existência humana, mas a forma como lidamos com ele é que faz a diferença. Talvez esse seja o ponto mais importante nos clientes em atendimento. Reconhecer aquilo que é realmente necessário se orientando através daquilo que é sentido, pode proporcionar um crescimento no qual a pessoa se sinta potencializada e não vítima, mas agente da própria existência.

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