Certa vez, ao apresentar um seminário, perguntei ao público presente quais palavras lhes remetiam a cabeça ao ouvir a palavra trabalho. As respostas não variaram muito dentre dinheiro, sobrevivência, emprego e dinheiro outra vez. A partir dessas respostas comecei explicando que todas essas palavras só se remetiam a uma das concepções de trabalho e que este já foi bem mais amplo do entendimento que temos sobre ele nos dias atuais.
Para os gregos, o trabalho foi pensado em labor, poiesis e práxis (ALBORNOZ, 2008). Nessa época existia uma adaptação do trabalho às necessidades humanas e cada um dos seus três aspectos favorecia o homem. O labor era compreendido como atividade necessária à sobrevivência que exigia sacrifício humano para manter a espécie. A poiesis era entendida como prática de construção de instrumentos ou obras artísticas que demandavam motivação e criatividade do indivíduo e que era um dos modos de lazer. A práxis possibilitava o homem livre ir às praças e debater questões referentes à democracia. Após essa época, houve uma inversão do homem que adaptava o trabalho às suas necessidades para o homem que precisava se adaptar às necessidades do trabalho.
Esse processo ocorreu devido a um movimento de supervalorização do labor durante a história do Ocidente. Na Idade Média, a Igreja defendia que o trabalho que exigisse sacrifício era aquele capaz de trazer purificação do espírito na vida eterna. O sofrimento da carne se fazia necessário àqueles que desejavam o reino dos céus. Na Idade Moderna, Adam Smith separou o trabalho produtivo do improdutivo afirmando que o primeiro era aquele que traria dinheiro à nação. O mercado se auto-regularia com a lei de oferta e procura e o estado passaria a gerar empregos que favorecessem o trabalho produtivo. Esse pensamento culminaria na exploração do trabalho na Revolução Industrial, no qual existia a submissão dos operários que não tinham instrumentos de produção para o trabalho. Estar empregado se tornava sinônimo de ter trabalho e práxis e poesis eram considerados improdutivos.
Nos dias atuais, se o trabalho se torna sinônimo de emprego e se o objetivo deste é obter renda para a sobrevivência, para o consumo, ou para outra coisa, que ele possa ser pensado como um dos meios, e não como o sentido da existência. A palavra trabalho vem do latim tripalium que denominava um instrumento de madeira em formato de tripé que era utilizado para tortura pelos romanos. Além disso, nas definições da língua portuguesa, ao buscar o sentido da palavra, pode-se encontrar aproximação ao sacrifício ou ao sofrimento. Tendo isso em vista, por que o trabalho se tornou tão importante na vida do indivíduo?
Esse aspecto passou a ser fundamental na identidade do homem. Quando alguém nos é apresentado é dito primeiro seu nome e logo em seguida a sua profissão. É como se pudéssemos definir o que a pessoa é ou o que ela gosta devido à atividade que exerce. Esse primeiro conhecimento acaba, em algumas ocasiões, limitando que tipo de diálogo teremos com a pessoa que nos foi apresentada. A profissão vem em primeiro lugar para depois sabermos quem é que está por trás dela. Seria no mínimo estranho se apresentássemos alguém dizendo “esse é fulano e seu sonho é...”. Não foi isso que aprendemos a valorizar. O trabalho ainda está em primeiro plano.
O emprego pode trazer perspectivas positivas na vida do sujeito, mas não precisa ser o único referencial de sua existência. O trabalho pode ser encarado como um desafio, como crescimento ou como possibilidade de socialização, mas flexibilizar nossas vidas para corresponder às expectativas do emprego podem trazer conseqüências negativas que muitas vezes não são percebidas por nós.
Em um estudo realizado por Sennet (2007), foi revelado que algumas exigências no mundo do trabalho como uma sobrecarga de serviços fragilizam as relações humanas. O autor afirma que a rapidez nos processos de negociação e no rápido desenvolvimento da tecnologia afasta o homem do contato humano e da possibilidade de desenvolver relações significativas de amizade ou de confiança. Isso porque esses valores exigem certo tempo para serem firmados e a velocidade com a qual as coisas no trabalho acontecem distanciam a probabilidade disto ocorrer. Além disso, é crescente o número de psicopatologias que surgem através do trabalho como stress, depressão, burnout etc.
Tudo bem que ninguém vive de luz, mas viver para o labor é desperdiçar a vida em sobreviver. No Oriente o sentido do trabalho é diferente, pois não houve essa supervalorização do labor. A questão não é fugir da nossa cultura ou abominá-la, mas entender qual o sentido que temos dado ao trabalho e à vida. Lançar mão da saúde em prol do dinheiro no começo da vida, e no final da vida usar o dinheiro para resgatar saúde não faz sentido (essa idéia é de um autor que não lembro o nome). Não para mim.
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